27/05/2008 | Por: Mauricio Pestana
A mais completa pesquisa já feita sobre hábitos e costumes da classe média negra brasileira realizada pela agência Grottera, indicou que seu tamanho é de 7,5 milhões de pessoas, com renda conjunta de 46 bilhões de reais, que sonham: ganhar mais dinheiro (54%) abrir seu próprio negócio, (44%), comprar ou trocar de carro (43%).
Os gastos mensais desses negros chegam a 700 milhões e estima-se que somente a poupança gire em torno de 200 milhões. Nosso entrevistado deste mês, poderíamos dizer um legitimo representante desses afortunados, poderia se os seus sonhos e compromisso com a consciência racial não fosse muito acima do consumo e do dinheiro.
Edison Dias construiu uma carreira no sistema financeiro como poucos no país saiu do zero para diretor e um dos homens mais fortes no Brasil do HSBC uma das maiores instituições financeira do planeta, tudo isso sem perder o vinculo com suas origens e com a luta pela inclusão do negro na sociedade como podemos acompanhar, nesta entrevista exclusiva para a Raça Brasil.
Como foi sua infância?
Meus pais vieram do interior de Minas Gerais cheio de filhos, ao todo tive 11 irmãos o pai agricultor sem profissão veio para trabalhar a pedido de um tio que era pedreiro, trabalhava de servente e de graça para apreender a profissão o pior disso tudo, semi analfabeto, só conhecia dinheiro e assinava o nome.
Eu e mais dois irmãos nascemos aqui, hoje somos em 6 irmãos sou o penúltimo dessa família, meu pai tinha um compromisso com a alimentação muito forte a responsabilidade dele neste aspecto era grande nunca nos deixou faltar comida em casa, acompanhava direitinho a nossa evolução mesmo dentro da simplicidade, minha mãe lavadeira e trabalhava em oficina de costura, quando tínhamos tempo vago na escola entre 8 e 9 anos íamos para obra meus irmãos mais tarde estudaram porem todos nós íamos para obra no final todos eram pedreiro somente eu fui servente de pedreiro.
E a vida escolar?
Com 10 anos sai do primário, na época tinha admissão para o ginásio consegui ser aprovado, mas a escola era particular aí surgiu o problema conversei com o meu pai com 11 anos ele disse sinto muito você precisa estudar mas todos aqui precisam se alimentar, pagar escola não dá.
Estudei seis meses com inadimplente aí um funcionário da escola em uma conversa me falou: o governo vai fazer uma seleção aqui para escola pública que não tem vaga para todos e vou passar avisar todos os alunos, mas entendo que você tem dificuldade financeira gostaria que você fizesse esse exame esse é o local da inscrição vai lá, por favor, e faça isso porque é a garantia que você pode estudar eu vejo que você tira notas tem regularidade, vai lá, peguei a tal ficha de inscrição e passei no tal exame Então a minha trajetória escolar ela tem esse viés importante de ajuste por meu pai e desta pessoa fundamental na minha vida.
Sua ida para o mercado financeiro como se deu?
Com 14 anos tirei a carteira profissional, arrumei emprego em uma marcenaria fiquei por dois anos aos 17 anos já estava na beira do serviço militar e interrompi servi o exercito por 10 meses sai arrumei emprego em uma construtora no primeiro ano de faculdade fiquei conhecido, por fazer trabalhos escolares era bom em “Estrutura análise interpretação de balanço”.
Já fazia para min e para quem tinha condições de pagar, por muito tempo faltei na escola para fazer esses trabalhos neste período tive um amigo na faculdade muito inteligente ele teve um sucesso profissional muito grande Fernando Pajero e me falou vou te tirá-lo desse trabalho ruim na construtora e colocá-lo em um banco você quer?
Foi o primeiro contato com o banco e na área de recursos humanos comecei minha vida profissional no Unibanco, bom eu fiquei 17 anos e conheci uma pessoa que se chama Eliseu ele trabalhava no Banco Safra podemos trabalhar juntos de novo ele era chefe de uma assessoria econômica do presidente do Unibanco e lá fui eu.
Ele me convidou, sem nenhum conhecimento em economia, e fui trabalhar nessa área. Falar de economia é algo que não era da minha formação e nem tão pouco de conhecimento mas fui lá e eles se propuseram a me ensinar, encontrei Geraldo Gardenar que foi presidente do Banco Nossa Caixa que foi meu chefe lá e que me ajudou a crescer nesse lugar, encontrei Oquimar Moura, tinha passado por lá se não me engano Bresser Pereira era uma assessoria importante para o presidente do Unibanco que era Roberto Munrad naquela época.
Então sua ascensão foi uma junção de competência aliado a bons relacionamentos?
Talvez, um belo dia aconteceu de eu fazer um trabalho meu chefes pediram e fiz compilação de todos os dados e preparei todo trabalho ele viu e ficou lá um dos presidente do banco chamou o para apresentar em um determinado dia que ele não estava, quem fez mandou na lista que precisava falar comigo e eu desci e fui lá passar o trabalho eu devo ter passado tão bem que no dia seguinte estava publicado no Jornal Estado de São Paulo.
Todos vinham me dar parabéns eles perceberam que eu era muito mais comercial do que analista eu também sabia disso eu também não gostava de ficar preso atrás de uma mesa eles me convidaram para trabalhar em uma mesa de operações com produtos de renda fixas e lá fui eu, como operador de mesa fixa para o mercado foi um pulo para ir para agencia e depois voltar a trabalhar com contas, com empresas depois fui convidado a ir pro Banco Safra ai eu já assumi uma posição de Destaque lá eu fique por alguns anos e mais tarde eu vim com uma equipe aqui para o Banco HSBC exatamente para montar processo de recebiveis e cheguei até a Diretoria comercial do banco que é até onde estou hoje.
Que dificuldades tem um negro diretor de banco?
Na verdade você é barrado sem que você saiba esse é o pior preconceito porem na medida que tem acessão profissional, a sua vida social também tem acessão aí que você começa a encontrar dificuldades. A discriminação não está no gueto, na cohab, por que lá somos todos iguais a dificuldade é quando você chega aqui aí que eu me preocupo, porque me preocupo com os meus filhos e com o conjunto.
Qual foi a discriminação que te marcou neste mundo.
Houve algo que marcou-me profundamente pois veio exatamente de uma comunidade que sofreu e sofre como nós a discriminação.
Em uma reunião de diretoria de um Banco que trabalhei um diretor de origem Judaica irritado com meu bom desempenho me chamou de Negro de merda foi uma situação extremamente complicada, foi a primeira vez que ouvi isso tão explicitamente, aí eu percebi que incomodava.
Em uma classe seleta de pessoas que estavam em nível de diretoria nessa época, eles eram diretores e incomodei com meu trabalho foi complicadíssimo porque até o presidente veio conversar comigo então foi algo muito triste nesse banco pois foi a primeira vez que deparei formalmente e também a primeira vez que tive que tomar uma atitude, porque eu não estava disposto a tomar uma atitude talvez não tivesse consciência para tomar essa atitude.
Talvez hoje fosse muito mais fácil tomar essa atitude naquela época eu precisava muito mais do meu emprego como sempre precisei, mas eu tinha que tomar uma decisão como tinha muito mais pessoas dentro dessa reunião ficou muito fácil eu tivesse por isso é que incomodou tanto até porque depois da discussão eu estranhei . Bom foi o primeiro contato eu acho que as outras vieram de maneira elevada que não me impediu de crescer não me incomodou.
Qual o conselho para o jovem negro ter sucesso na carreira como você?
Afinar a consciência e condição social, você atinge classe social você não nasce, tem gente que nasce porque é rico, você que sabe que é negro que tem que batalhar para conseguir tem que trabalhar você atinge classe social como é que tem que começar pela escola minha trajetória começou na escola com incentivo do meu pai, alguém me ajudou eu fui respondendo com a minha dedicação.
Eu fui um aluno muito aplicado esse negócio todo e fui chegando onde estou hoje, bom como é que você atinge na empresa exatamente no ponto que agente discutia da questão de você ser estagiário e passa ser funcionário e se torna um profissional você precisa de um conjunto hoje eu acho que a escola é muito importante ela é o primeiro caminho.
Você não pode ter medo de enfrentar essa dificuldades todo jovem negro hoje tem que se conscientizar que ele não pode ser mais humilde do que necessariamente a vida coloca como humilde, ele não pode achar que a todo momento ele tem que fazer agradecimentos quando em determinado momento tem que passar por esses momentos e eu gosto da minha profissão se existe uma receita de sucesso eu acho que essa é a mais importante pra mim.
Como é a mudança de posição social, família, amigos etc.?
Eu costumo dizer e peço a DEUS que nunca me deixe esquecer de minha origem e nem tão pouco perca meus valores então esse conceito de humildade e da minha formação é algo que eu defendo então é minha origem é a zona leste continuo naquela região agora moro no Tatuapé, gosto da acessão profissional, mas não esqueço dos meus, então isso faz parte da minha vida.
Bom segundo ponto eu costumo dizer para os meus filhos que eles não são classe media, eles precisão conquistar a classe media então eles estão no processo eles precisam estudar bastante, trabalhar bastante e conquistar posições não adianta eles se defender em cima da minha posição, não fazer nada por eu hoje estar na direção de um banco não é verdade eles precisão conquistar isso.
Agora como é que então talvez essa seja a minha maior batalha até quando eu tento falar da minha origem e da minha raça é isso que nós precisamos é de mais respeito, não uma questão de dinheiro, eu não preciso de dinheiro, não preciso de carro novo, eu preciso é andar de cabeça erguida que meus valores, da minha família e dos meus e da comunidade como um todo sejam respeitados então talvez essa seja a minha maior batalha até quando eu tento falar da minha origem e da minha raça é isso que nós precisamos é de mais respeito.
Você disse não haver discriminação no gueto, na cohab, não existe ou ela é menor ?
Eu morava em Itaquera que esta relacionado ao gueto moramos muitos anos lá, quando decidimos mudara minha mulher nos chamou e alertou para o novo mundo e os desafios que teríamos que enfrentar.
Os primeiros dias de morar em um condomínio de classe média foi a interessante porque se meus filhos e eu chegássemos com amigos brancos o porteiro ou o representante do condomínio vinham nos alertar a não entrar na picina pois não era permitido para convidados, e nossos amigos brancos é que eram os convidados, uma família negra em condomínio de aproximadamente mil pessoas que se quer conhece uma família negra imagine o que é isso?
Houve mais problemas?
Sim houve crianças que se escondiam com medo da gente o meu filho se incomodou foi até o apartamento deles já sabia onde era e disse: olha vou te pedir um favor o seu filho não é obrigado a gostar de negros ou de mim, mas ele tem que me respeitar ou até porque eu vou te fazer uma denuncia.
Vou te devolver o que ele está me fazendo ta certo no condomínio tem o elevador de serviço lá os empregados todos usam o elevador de serviço, pra mim é indiferente mas a minha mulher desceu em um dos andares subiu também uma moça que era empregada negra falou assim, começou com uma conversa que frio né ta frio? Puxa pena que nos não podemos dormir agora dar depois do almoço. A minha mulher disse olha eu vou dormir sim, ai ela respondeu por que você mora no emprego?
Você vê como são as coisas, problema muitas vezes passa da gente para a gente mesmo não podemos deixar isso acontecer!
Maurício Pestana Presidente do Conselho Editorial Revista Raça Brasil, www.mauriciopestana.com.br Publicado na Revista Raça Brasil Edição nº 121
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